sábado, 9 de outubro de 2010

David Grossmann


Texto: Ubiratan Brasil / FRANKFURT - O Estado de S.Paulo
Foto: MMaranhão / Frankfurt - Agencia Estado

O escritor israelense David Grossmann não esmorece facilmente. Para muitos, sua luta pela paz entre seu povo e os vizinhos palestinos é infrutífera, mas ele insiste em convencer os líderes das nações a uma solução pacífica no Oriente Médio. Por conta de sua tenacidade, Grossmann recebe amanhã o Prêmio da Paz, entregue anualmente pelos editores alemães. "É curioso que, em Israel, a palavra shalom (paz) é das primeiras que aprendemos a escrever na escola", disse ele, durante entrevista coletiva na Feira de Livros de Frankfurt. "Infelizmente, mesmo sendo constantemente pronunciada em meu país como um cumprimento, "shalom" tornou-se uma palavra evasiva e a vivemos quase como uma alucinação."

Grossmann, que também lançou em alemão o livro A Mulher Foge (Companhia das Letras, no Brasil), lembrou que, com a mulher, pensou em proibir os filhos, então pequenos, de assistissem a filmes de horror para protegê-los de cenas mais fortes. A realidade de guerra em que viviam, no entanto, fez com que o casal abandonasse a ideia. "As notícias de jornais e TV eram mais terríveis que as cenas dos filmes."

É justamente contra o conformismo de seus conterrâneos em aceitar a guerra como fato cotidiano que luta Grossmann em seus ensaios e ficções. Ele perdeu um filho, Uri, em 2006, depois que o tanque em que ele estava com outros três colegas foi abatido por um míssil libanês. Na época, ele escrevia A Mulher Foge e, consternado, chegou a interromper o trabalho. Só retomou depois de motivado por outro autor, Amós Oz.

Depois da terrível perda, Grossmann tornou-se ainda mais prático. "Passei a mostrar que há alternativas para a paz, pois não estamos condenados pelos céus a viver eternamente em guerra", afirmou, acreditando no respeito aos adversários. "Temos de entender e aceitar as histórias de dor e pena dos palestinos."

Sobre os polêmicos assentamentos judeus em território palestino, Grossmann foi taxativo: "Sempre acreditei que os assentamentos são um grave problema, pois dificultam o processo de paz e ainda ameaçam a legitimidade de Israel. Mas há também um processo de demonização de Israel no mundo árabe, até mesmo nas escolas, pois o Hamas continua disposto a tirar Israel do mapa. Isso tudo seria desanimador, mas não esmoreço." Como viaja muito, o escritor percebeu diversas semelhanças nos hábitos e cotidianos de israelenses e palestinos, o que facilitaria, no seu entender, a formação de bons vizinhos. "Sei que não é possível um amor mútuo, mas pretendo a convivência pacífica."

Questionado se já pensou em deixar Israel, Grossmann fez silêncio antes de responder que a ideia já lhe ocorrera, especialmente após a morte do filho. "Nossa decisão, porém, foi clara: Israel é nossa casa, pois é o único lugar onde não nos sentimos estrangeiros."

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